29/11/2019

Terceira idade e Resiliencia

TERCEIRA IDADE e RESILIÊNCIA

 

Na atualidade muito se estuda sobre a integração do idoso na sociedade como fator de resiliência.

 

          Atualmente o envelhecimento da população mundial ocorre sem precedentes na história. A humanidade está passando por uma transformação demográfica como nunca vista antes. De acordo com pesquisas, avalia-se que, até 2050, o número dos idosos aumentará em aproximadamente de 600 milhões a quase 2 bilhões. Pela primeira vez na história, no decorrer dos próximos 50 anos, haverá no mundo mais pessoas acima de 60 anos do que menores de 15 anos.

Teve menor representatividade no total da população brasileira enquanto houve um aumento no número de pessoas idosas. O envelhecimento da população brasileira é reflexo do aumento da expectativa de vida, devido ao avanço no campo da saúde e à redução da taxa de natalidade. Desse modo, ocorre não somente um aumento da população idosa, mas também um envelhecimento dessa população, com um número maior de idosos nas faixas etárias mais elevadas.

          Contudo, embora a maioria dos indivíduos que envelhecem continuem ativas e integradas na vida social e cultural do país, a aceleração do envelhecimento populacional não foi acompanhada de planejamentos adequados para o atendimento de idosos. Por esse motivo, esse atendimento ainda se encontra defasado das necessidades do público idoso (Berquó, 1999).

          Dessa forma, o fenômeno do envelhecimento torna-se um problema mundial e não somente de países de Primeiro Mundo. O envelhecimento é um tema que passa ter grande relevância e dominância no século XXI porque traz consequências para todos os setores da vida humana.

          Segundo as projeções estatísticas, entre os anos de 1950 e 2025, a população idosa no Brasil crescerá de 16 vezes contra 5 vezes a população total. Esse crescimento colocará o País como a sexta população de idosos do mundo, com mais de 32 milhões de pessoas de 60 anos ou mais (Organización Mundial de La Salud - OMS, 1984). Assim sendo, essas projeções demonstram que a proporção de idosos no país passará de 11%, em 2009, para quase 15%, em 2025, assemelhando à proporção de idosos da maioria dos países europeus (Costa, Guerra, Barreto & Guimarães, 2000).

          De acordo com as projeções do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o envelhecimento populacional brasileiro para o ano de 2050 é que a participação da população jovem continuará decrescente, passando de 28,6% para 17,2%, enquanto ocorrerá um modesto declínio na população adulta de 66,0% para 64,4%, e todo o aumento se concentrará na população idosa, que ampliará a sua importância relativa, intensificando sobremaneira o envelhecimento demográfico (Martins, 2011).

          Os avanços da medicina e as melhorias nas condições gerais de vida da população repercutem no sentido de elevar a média de vida do brasileiro (expectativa de vida ao nascer) de 45,5 anos de idade, em 1940, para 73,17 anos, em 2011, ou seja, mais 27,67 anos de vida.

          Apesar da evolução no patamar de expectativa de vida, o Brasil ainda está no 19º lugar em um ranking que reúne diversos países, divulgado pelo IBGE. No topo do levantamento estão o Japão (82,7 anos), a Islândia (81,8), a França (81,2) e o Canadá (80,7). A expectativa brasileira também é inferior a Uruguai (76,2), México (76,1), Argentina (75,2) e Venezuela (73,8). O último país no ranking é Serra Leoa (47,4 anos).

          Conforme a projeção do IBGE, o país continuará galgando anos na vida média de sua população, alcançando em 2050 o patamar de 81,29 anos, basicamente o mesmo nível atual da Islândia (81,8), Hong Kong, China (82,2) e Japão (82,7).

          No ano de 2010, a população brasileira com até 25 anos de idade envelhecimento da população implica novas demandas por serviços, benefícios e atenções que se constituem em desafios para governantes e sociedade. Assim sendo, a população idosa deve merecer o interesse dos órgãos públicos, dos formuladores de políticas sociais e da sociedade em geral (Berquó, 1999).

          Ainda, é preciso promover a expressão das expectativas e anseios dos idosos de maneira a obter melhorias em sua qualidade de vida. Desse modo, diante dessa realidade, que as ciências ligadas à saúde focalizem em estudos que possam a favorecer a qualidade de vida de pessoas idosas (Berquó, 1999).

          O envelhecimento da população idosa acarretou mudanças do perfil social, físico e psicológico, demandando estratégias e estruturas que contemplem a atenção e o cuidado dos idosos, tais como: a preservação dos seus direitos como cidadão, a disponibilidade de recursos públicos à sua saúde e a seguridade social, o direito ao lazer, e a implantação de políticas públicas de saúde voltadas aos aspectos paliativos, preventivos e curativos (Veras, 2007).

          Desse modo, no processo de envelhecimento, mudanças físicas, psicológicas e de papéis sócias constituem desafios para o self e para a manutenção do bem-estar dos seres humanos. Assim sendo, a velhice pode ser caracterizada como um período promissor para a investigação de fatores e processos de resiliência e vulnerabilidade (Hardy, Concato & Gill, 2004; Ryff et al., 1998). Assim sendo, as condições de vida dos idosos têm sido objeto de estudo em diversos campos e áreas científicas, dentre esses o avanço de pesquisa, principalmente após o advento da Política Nacional do Idoso, Lei nº. 8.842 de 04.01.1994, assinada e promulgada em 27 de setembro de 2003 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, posteriormente, o Estatuto do Idoso, Lei nº. 10.741 de 01.10.2003, constituindo-se como uma das diretrizes a capacitação e a reciclagem dos recursos humanos nas áreas de Geriatria e Gerontologia, tanto que o dia 01 de outubro é considerado o dia do idoso a nível nacional. Entretanto, muitas questões permanecem ainda em aberto.

          Porém, para os brasileiros, o emergente tema da resiliência, assunto que será tratado no Capítulo II do presente trabalho, identificado como um desafio para este novo milênio continua sendo um ilustre desconhecido. Esse assunto demanda investigações que levem em conta a realidade brasileira, uma vez que este tema implica e contribui para a satisfação de vida das pessoas, sobretudo as idosas.

 

- GENERALIDADES DO ENVELHECIMENTO.

 

          O processo do envelhecimento representa a consequência ou os efeitos da passagem do tempo no organismo e psiquismo. O envelhecimento biológico é implacável, ativo e irreversível, causando mais vulnerabilidade do organismo às agressões externas e internas. Já o envelhecimento psíquico ou amadurecimento não é naturalmente progressivo nem ocorre inexoravelmente, como efeito da passagem de tempo. Depende também da passagem do tempo, mas, sobretudo, do esforço pessoal contínuo na busca do autoconhecimento e do sentido da vida (Beauvoir, 1990).

          Na mais remota história, o tema do envelhecimento e da longevidade humana é algo que já se fazia presente, seja na busca pela fórmula da eterna juventude ou como preocupação constante do homem em todos os tempos.

          Assim sendo, o processo do envelhecimento e sua consequência natural, a velhice, são uma das preocupações da humanidade desde o início da civilização. De acordo com Leme (1996), poucos problemas têm merecido tanta atenção e preocupação do homem como o envelhecimento e a incapacidade funcional associada a esse processo.

          O assunto do envelhecimento vem despertando maior ênfase na última década, devido sobretudo a sua expansão tanto a nível mundial, como na realidade brasileira, sendo objeto de investigação na comunidade acadêmica e na sociedade civil.

          Principalmente no século XX houve grandes avanços na ciência do envelhecimento, graças aos conhecimentos adquiridos por meio dos estudos que se desenvolveram desde que os pioneiros Metchnikoff e Nascher, em 1903 e em 1909, respectivamente, estabeleceram os fundamentos da gerontologia e da geriatria.

          Desse modo, o século XX marcou definitivamente a importância do estudo da velhice, fruto, de um lado, da natural tendência de crescimento do interesse em pesquisar e estudar o processo de envelhecimento, o qual já se anunciava nos séculos anteriores, e por outro lado, o aumento do número de idosos em todo mundo exerceu pressão passiva sobre os desenvolvimentos nessa área (Achenbaum, 1995).

          Tanto que em 1903, o cientista Elie Metchnikoff, sucessor de Pasteur, defendeu a ideia da criação de uma nova especialidade, denominação obtida a partir das expressões gero (velhice) e logia (estudo), propondo um campo de investigação dedicado ao estudo exclusivo do envelhecimento. Esse cientista, em vez de aceitar a inevitabilidade da decadência e da denegeração do ser humano com o avançar dos anos, pensava que algum dia uma velhice fisiológica normal poderia ser alcançada pelos homens (Achenbaum, 1995).

          Entretanto, de acordo com Lopes (2000), a postura rígida de Metchnikoff e o compromisso com a pesquisa não foram suficientes para ganhar o apoio e a atenção da comunidade científica para o assunto que vinha pesquisando.

          Assim, apesar de os conhecimentos a respeito da fisiologia do envelhecimento não terem sofrido grandes modificações conceituais, na ocasião houve interesse em criar uma nova especialidade na medicina, que visava tratar das doenças dos idosos e da própria velhice, sendo que, em 1909, esta especialidade passou a ser denominada geriatria, ou estudo clínico da velhice, como propôs o médico vienense radicado nos Estados Unidos Ignatz L. Nascher. Esse médico estimulou pesquisas sociais e biológicas sobre o envelhecimento e, por esse motivo, foi considerado pai da geriatria, sendo que fundou a Sociedade de Geriatria em Nova Iorque em 1912 (Achenbaum, 1995).

          Além de Metchnikoff e Nascher, o psicólogo G. Stanley Hall, em 1922, destacou-se no estudo da velhice, ao publicar o Senescence: the Last Half of Life. De acordo com Lopes (2000), por meio de evidências históricas, médicas, literárias, biológicas, fisiológicas e comportamentais, Hall procurou comprovar que as pessoas idosas tinham recursos até então não apreciados, contradizendo a crença que a velhice é simplesmente o reverso da adolescência.

          Assim sendo, perceber-se que Metchnikoff, Nascher e Hall possuem uma visão otimista das possibilidades que as pesquisas sobre o estudo do envelhecimento poderiam proporcionar e, além disso, uma concepção menos pessimista sobre a evolução da decadência e da degeneração do ser humano com o avançar dos anos (Lopes, 2000).

Entretanto, durante mais de duas décadas, até o aparecimento do trabalho de Marjory Warren (Mathews, 1984) no ano de 1930, a gerontologia ficou praticamente restrita aos aspectos biológicos do envelhecimento e da velhice. Warren delineou os primórdios da avaliação multidimensional e a importância da interdisciplinaridade.

          Desse modo, a partir do ano de 1930 começaram a surgir numerosos trabalhos em todas as áreas que atualmente compõem a ciência do envelhecimento, através dos quais foi possível acrescentar conhecimentos aos até existentes. Esses trabalhos científicos colaboraram de maneira decisiva para a construção dos conhecimentos sobre o fenônemo do envelhecimento, sendo, que essas pesquisas de caráter biofisiológico puderam estabelecer que, com o avançar dos anos, vão ocorrendo alterações estruturais e funcionais que, embora variem de um indivíduo a outro, são encontradas em todos os idosos e são próprias do processo de envelhecimento (Papaléo Netto e Pontes, 2001).

          Entre os anos de 1950 e de 1970 foi benéfico quanto à formação de grupos de pesquisa longitudinal sobre a vida adulta e a velhice, sendo exemplos os estudos realizados em Bonn, em Kansas City, na Pensilvânia e em West Virginia. No período de 1950 a 1959 foram publicados mais estudos sobre velhice do que nos 115 anos precedentes. Já entre 1969 a 1979, a pesquisa na área aumentou 270%, sendo que nesse período, cerca de 60% dos trabalhos versavam sobre os processos intelectuais, refletindo a aceitação da ideia de que são fundamentais à adaptação dos idosos, interesse esse que permanece acentuado até os dias atuais. Nos anos de 1980 a 1990 abriram-se novas áreas de interesse geradas pelas necessidades sociais associadas ao envelhecimento populacional e à longevidades, como, por exemplo, o apoio a familiares que cuidam de idosos dependentes, os custos dos sistemas de saúde e previdenciário, a necessidade de formação de recursos humanos, a necessidade de ofertas educacionais e ocupacionais para idosos e pessoas de meia-idade (Neri, 2001).

          Em suma, o envelhecimento é um processo que ocorre durante o curso de vida do ser humano, iniciando-se com o nascimento e terminando com a morte.

          O processo de envelhecimento provoca no organismo modificações biológicas, psicológicas e sociais, entretanto, é na velhice que esse processo aparece de forma mais evidente. As modificações biológicas são as morfológicas, revelada por aparecimento de rugas, cabelos brancos e outras. Já as modificações fisiológicas são relacionadas às alterações das funções orgânicas. E por fim, as modificações bioquímicas estão diretamente ligadas às transformações das reações químicas que se processam no organismo. As modificações psicológicas ocorrem quando, ao envelhecer, o ser humano precisa adaptar-se a cada situação nova do seu cotidiano. Já as modificações sociais são verificadas quando as relações sociais tornam-se alteradas em função da diminuição da produtividade e, principalmente, do poder físico e econômico, sendo a alteração social mais evidente em países de economia capitalista (Neri, 2001).

          Sobre o processo do envelhecimento, Morin (1999), entende que o ser humano, rejeitando a morte como rejeita, recusando-a com todas as suas forças, tende a rejeitar também a velhice; talvez por ser a fase da vida que mais se aproxima da morte, tornando a velhice um peso. Para esse autor, sendo o ser humano marcado pela consciência da tragédia da morte, ele tenta inventar os mitos para negá-la ou para encontrá-la, pensando nos meios para aceitá-la.

          Ainda, de acordo com Morin, é difícil perceber a origem, o motor do processo de envelhecer, pois para este autor o caráter patológico da velhice manifesta-se em três planos: no social, na percepção de que a velhice sadia é patológica enquanto velhice em si, na própria morte que é patológica e é aproximada pela velhice. Por fim, finalizando suas reflexões, Morin aceita que a velhice e a morte estão inscritas na herança genética humana e que são "coisas normais e naturais, porque uma e outra são universais e não sofrem qualquer exceção entre os mortais" (Morin, 1997).

          Dentre os princípios de identidade do sujeito descritos por Morin (1999), um deles tem uma relação mais direta com o processo de envelhecer. É o que o autor denomina de inseparável, o qual ocorre quando o eu continua o mesmo a despeito das suas modificações internas (nas mudanças de humor), do si mesmo (nas modificações físicas devidas à idade). Esse autor concorda que o ser humano modifica-se somaticamente do nascimento até a morte, porém o ser humano continua o mesmo.

          Atualmente, existem pesquisas que apontam que o processo de envelhecimento pode ser reformulado quando se utiliza, de forma adequada, a conexão mente e corpo e quando se considera o valor da alimentação, a importância da relação com o mundo exterior e a importância do exercício do silêncio interior.

          Tais estudos, realizados nas últimas décadas do século XX, têm comprovado que o envelhecer é muito mais dependente do próprio ser humano do que se imaginou em épocas passadas. Segundo o entendimento de Chopra (1999) “embora os sentidos lhe digam que você habita um corpo sólido no tempo e no espaço, esta é tão-somente a camada mais superficial da realidade. Esta inteligência é dedicada a observar a mudança constante que tem lugar dentro de você. Envelhecer é uma máscara para a perda desta inteligência”.

          Assim sendo, o processo do envelhecimento é um processo universal, que não afeta só o ser humano, mas a família, a comunidade e a sociedade, tendo a velhice como sua última fase. Por fim, o envelhecimento representa a consequência ou os efeitos da passagem do tempo no organismo e psiquismo. Todas as dimensões são igualmente importantes, na medida em que são coadjuvantes para a manutenção da estabilidade somática e psíquica, indispensáveis para o ser humano cumprir a sua meta, que é ser feliz.

          Deste modo, o processo de envelhecimento é absolutamente individual, variável, cuja conquista se dá dia após dia, desde a infância. A velhice bem-sucedida é consequência de uma vida bem-sucedida.

          Por fim, muito poderia ser manifestado sobre o estudo e a pesquisa do processo de envelhecimento em todo o mundo no século XX, porém, alguns aspectos fundamentais foram levantados nesse subcapítulo de forma resumida e serão complementados a seguir

 

ENVELHECIMENTO NO BRASIL

 

          O envelhecimento da população brasileira é um fenômeno relativamente novo, sendo um grande desafio para o país, o estabelecimento de políticas públicas que garantam qualidade de vida às pessoas idosas.

          As autoras Araújo e Alves (2000), apontam o caráter irreversível do processo de envelhecimento e enfatizam a necessidade e importância de estudos sobre o tema e o grupo social em questão. Ainda, de acordo com elas, enquanto a população com menos de 20 anos cresceu 12% de 1980 a 1999, a população idosa cresceu 70%, passando de 7,2 milhões para 12,6 milhões, sendo que até o fim do século, a expectativa de vida terá aumentado 20 anos.

          O processo de envelhecimento populacional, ao contrário do que se pensa, resulta do declínio da fecundidade e não do declínio da mortalidade. Uma população torna-se mais idosa à medida que aumenta a proporção de indivíduos idosos e diminui a proporção de indivíduos mais jovens, ou seja, para que uma determinada população envelheça, é necessário haver também uma menor taxa de fecundidade (Veras et al., 1987).

Assim sendo, este processo de envelhecimento populacional provocado pela redução da mortalidade, a diminuição da taxa de fecundidade e o aumento da expectativa de vida, nos coloca diante de novos desafios que exigem respostas urgentes.

          No período de 1940 e 1960, o Brasil experimentou um declínio significativo da mortalidade, mantendo a fecundidade em níveis bastante altos, o que gerou uma população jovem quase estável e com rápido crescimento.

          Entretanto, a partir dos anos 1960, a redução da fecundidade, que se iniciou nos grupos populacionais mais privilegiados e nas regiões mais desenvolvidas, generalizou-se rapidamente e desencadeou o processo de transição da estrutura etária. Nesse ritmo, futuramente, teremos uma população quase estável, porém mais idosa e com uma taxa de crescimento baixíssima ou talvez até negativa (Caralho[GQGM1]  et al., 2003).

          Nos dias atuais, o Brasil encontra-se em estágio de transição avançado tanto para mortalidade quanto para fertilidade, o que permite prever de maneira confiável a distribuição etária e o tamanho da população nas próximas quatro décadas. Segundo estatísticas, a população de idosos com idade acima dos 65 anos aumentará em velocidade acelerada (2 a 4% ao ano), enquanto a população jovem diminuirá.

          As projeções das Nações Unidas preveem que a população idosa aumentará de 3,1% em 1970 para 19% em 2050. A mudança na distribuição etária da população brasileira traz oportunidades e desafios que podem levar a sérios problemas sociais e econômicas se não forem equacionados adequadamente nas décadas vindouras.

Ainda, de acordo com estimativas das Nações Unidas a população idosa no Brasil estará entre as seis maiores do mundo em 2025, precedida por China, Índia, Rússia, EUA e Japão (Goldman, 2000).

          Segundo estatísticas do IBGE, entre os anos de 1950 a 2025, a população brasileira crescerá cinco vezes enquanto a população idosa aumentará quinze vezes no mesmo período. Estamos diante de um fenômeno novo e surpreendente, em que pela primeira vez na história da humanidade a faixa etária superior aos 60 anos é a que mais cresce.

          Ao nos referirmos sobre à velhice, é importante ressaltar, que não estamos falando de uma realidade bem definida, ao contrário, trata-se de um fenômeno extremamente complexo cujo conceito se deve à interdependência estreita de vários aspectos. Trata-se de uma experiência vivenciada de forma não homogênea, diversificada também em função das conjunturas sociais, econômicos, históricos e culturais, além dos fatores individuais, existenciais e subjetivos (Araújo et al., 2000).

          A Organização das Nações Unidas (ONU) estabelece que a idade de 60 anos demarque o início da velhice nos países considerados em desenvolvimento e a idade de 65 anos nos países desenvolvidos, embora existam muitas variações sociais e individuais que interfiram no ritmo do envelhecimento de cada um, tal fato é visto como uma resposta às mudanças evolutivas compartilhadas pela maioria das pessoas dos vários grupos etários, em virtude de determinação biológica, histórica e social (Neri, 1991).

          No entendimento de Magalhães (1989) “a velhice e o idoso emergem da dinâmica demográfica, do modo de produção econômica, da estrutura e organização de grupos e classes sociais, dos valores e padrões culturais vigentes das ideologias correntes e dominantes e das relações entre o Estado e a sociedade civil”.

          Desse modo, é importante atentar para a contradição vivida em nossa realidade social, uma vez que nossa cultura, ao mesmo tempo em que promove o aumento da expectativa de vida, ainda não reconhece o valor do idoso, tampouco quer assumir o processo de envelhecimento (Magalhães, 1989).

          Segundo Magalhães (1989), os preconceitos e os estereótipos, baseados em características de base biológica e fundamentados na falsa ideia de que o declínio biológico da velhice causa obrigatoriamente deficiência comportamental, tem como finalidade sutil dessa discriminação, a eliminação de competição econômica, encaixando-se num contexto sociocultural onde vigora a atribuição de superioridade a grupos produtivos social, política e economicamente, indicando inferioridade, imobilidade ou incompetência de outros grupos.

Assim sendo, o processo de expansão do sistema econômico favorece uma mentalidade de valorização do descartável e do novo, que se generaliza também para as pessoas mais velhas, tidas como retrógradas, conservadoras, não produtivas e não consumidoras (Magalhães, 1989).

          A realidade brasileira vem mostrando que o processo do envelhecimento populacional não tem sido acompanhado por estudos e serviços que deem conta desta demanda. O processo de implementação de políticas públicas, com vistas a minimizar os efeitos deste fenômeno, tem se apresentado de forma dramática, onde a crise pública em setores importantes como saúde e previdência, retrata o quadro de abandono às questões sociais, incluindo nesta realidade o grupo social dos idosos (Goldman, 2000).

          A partir dos anos 90, no Brasil a velhice é assunto de interesse público cada vez mais abordado por estudiosos, especialistas, prestadores de serviços, e também pela mídia, principalmente no momento em que a terceira idade passa a constituir também um mercado de consumo específico.

          No processo de envelhecimento a promoção da qualidade de vida torna-se um assunto de grande interesse a um grande número de pessoas, inclusive profissionais, crescendo também o apelo da sociedade ao consumo dirigido as pessoas idosas para manterem um bom padrão de vida.

          Segundo Goldman (2000), no processo de envelhecimento é possível perceber um caráter contraditório, pois, se por um lado há um aumento da expectativa de vida, devido aos avanços tecnológicos, acompanhados dos mais variados recursos, estes últimos não são acessíveis a toda a população brasileira, somente a uma pequena parte, ficando a maioria da população à margem dos serviços mínimos a serem prestados para que se garanta uma vida saudável e digna.

          O processo de envelhecimento, além disso, pode ser acompanhado por algumas dificuldades, nos níveis físico, social, cultural e também econômico, os quais frequentemente são colocados em segundo plano, onde o mercado de trabalho, a sociedade e mesmo a família, compõem este cenário de exclusão (Goldman, 2000).

          Historicamente, a questão da velhice vista como pertencente à esfera familiar, privada, de previdência individual ou de associações filantrópicas, atualmente passa a ser uma questão pública e social (Groisman, 1999).

          O processo do envelhecimento acarreta implicações sociais, políticas e, sobretudo econômicas, não somente para o idoso e seus familiares, mas também para a sociedade como um todo, uma vez que o aumento do número de idosos abarca questões importantes como aposentadoria, assistência médica, bens de consumo, necessidades básicas específicas a esta faixa etária etc (Groisman, 1999).

          Organizado de ações, referentes às questões do envelhecimento. De acordo com Goldman (2001), tais medidas se fazem essenciais, uma vez que permitem melhores possibilidades de conservação da saúde desde antes de se chegar à terceira idade.

          Ainda de acordo com Goldman (2001), ao analisar o processo do envelhecimento é preciso considerar que as necessidades dos idosos evoluem com o avanço da idade, não podendo, assim, se criar estruturas estáticas de atendimento. Essas medidas devem apresentar um caráter evolutivo e flexível às necessidades, que se transformam. A coordenação e integração entre os diversos serviços assistenciais, ou seja, o trabalho interdisciplinar, são fundamentais para se obter a elasticidade e complementaridade nos serviços e na assistência aos idosos.

          É importante também o trabalho de conscientização dos próprios idosos, dos familiares e das instituições bem como a articulação entre eles. Superar conflitos funcionais e profissionais, assim como ainda, o interesse pelas questões referentes à velhice reflete também na esfera política, sob a forma de leis, principalmente nos âmbitos estadual e municipal. A preocupação com a velhice foi incorporada ao discurso político e eleitoral de alguns representantes políticos, sendo incluída em suas plataformas e programas, a garantia dos seus direitos sociais, o amparo econômico após o cumprimento de seu tempo de serviço e da elaboração de uma política de empregos, além de outros benefícios. Segundo Groisman (1999), esse movimento político-intelectual parece expressar uma tomada de consciência e a necessidade de intervenção sobre uma nova questão social, ou melhor, uma nova expressão desta, o envelhecimento da população brasileira. Mas, pouco é feito na esfera política devido à falta de vontade dos governantes que são eleitos por seus programas enganosos.[GQGM2] 

          No Brasil, nos últimos anos, o idoso se tornou um protagonista social cada vez mais visível, ocupando espaço na mídia e ganhando a atenção do mercado de consumo, do lazer e do turismo, exigindo cada vez mais produtos e serviços que satisfaçam suas necessidades e anseios. Entretanto, apesar de toda essa atividade e participação, e dos importantes avanços científicos e tecnológicos dos últimos anos, o aumento da longevidade evidencia a fragilidade dos idosos que atingem idades mais avançadas (Goldman, 2000).

          Os últimos anos do século XX são marcados pela luta por medidas que garantam à pessoa idosa uma aposentadoria condizente, direitos e cuidados específicos, atividades sociais e integrativas, contrapondo-se à política assistencialista que vigorava até então. Questões como a conservação da saúde, das condições de trabalho e de lazer, da alimentação, do transporte e da habitação, além da pensão, da aposentadoria, da sociabilidade e da preservação da autonomia, começam a encontrar ressonância junto aos poderes públicos (Goldman, 2001).

          Entretanto, verifica-se que essas medidas têm se dado de forma descontextualizada e fragmentada, quando deveriam integrar um conjunto orarreiras culturais e desentendimentos entre instituições, família, governos locais, estaduais e federais é uma tarefa árdua, porém necessária à organização e desenvolvimento de eficazes políticas do envelhecimento (Goldman, 2001).

          Ainda, é importante ressaltar que o envelhecimento e as condições em que o indivíduo chega à velhice resultam de uma longa caminhada onde alimentação, educação, trabalho, lazer e saúde, são fundamentais nesse processo, participando do somatório de ganhos e perdas de cada um desde o nascimento.

          Segundo Sant’Anna (1997), no processo de formação de políticas de envelhecimento é imperativo considerar a diversidade interna que caracteriza nosso país, suas distintas realidades regionais, dando ao envelhecimento populacional do Brasil contornos diferenciados. Desconsiderar tal heterogeneidade consiste, desse modo, num erro de graves consequências, uma vez que distorceria a realidade, impedindo sua correta compreensão.

          Por fim, para que se efetuem as mudanças necessárias nas esferas política, social, econômica e cultural é preciso considerar a variedade de velhices existentes na realidade brasileira, dada sua extensão territorial, e sua diversidade de conjunturas e atravessamentos, sendo necessário destacar as particularidades dos contextos em que estão inseridos (Goldman, 2001).

          Em suma, para que haja uma ação efetiva por parte do Estado, por meio de políticas de envelhecimento condizentes com a realidade desta população, será fundamental a mobilização e organização da sociedade, por meio de organismos políticos, sindicais, profissionais e de associações, a fim de construir espaços de discussão e frentes de luta, no sentido de ampliar e aprofundar as conquistas já realizadas em favor dos idosos, assim como as políticas do envelhecimento.

 

RESILIÊNCIA:

 

          O processo de envelhecimento da população traz a necessidade de desenvolver estratégias protetoras que possam oferecer um suporte à população idosa cada dia mais crescente.

          Desse modo, o aumento visível da população idosa apresenta um desafio à competência dos profissionais quanto ao entendimento de seus problemas específicos. A chamada terceira idade apresenta problemas peculiares e seu atendimento requer um aumento de cuidados já previstos e dispensados a outros grupos etários, assim como estratégias a serem utilizadas para avaliar as questões características desta fase (Costa et al., 2000).

          Segundo Costa (2000), “a velhice é frequentemente descrita como um período caracterizado por uma diminuição das reservas, em virtude das múltiplas perdas que ocorrem simultânea ou sucessivamente no decorrer de um curto período de tempo. Eventos negativos não normativos e graduados por idade, como morte do cônjuge e de amigos, declínio da saúde e da funcionalidade física, perda de status social e prestígio e, às vezes, insegurança econômica, além da proximidade crescente da morte, tornam-se predominantes na velhice avançada. De fato, alguns eventos raros ou não normativos nas fases anteriores (por exemplo, doenças) tornam-se relativamente normativos na velhice”.

Assim sendo consideradas em conjunto, essas perspectivas de risco e desafios sugerem que é necessário um aumento na capacidade de reservas e da resiliência na velhice para que o funcionamento adaptativo possa se manter (Schaie & Hofer, 2001).

          Diante da realidade do processo de envelhecimento da população discute-se o conceito de resiliência psicológica como a capacidade que o indivíduo ou a família apresenta para enfrentar as adversidades, aprender com as mesmas e conseguir superá-las, o qual será discutido e analisado de forma mais minuciosa no subcapítulo a seguir.

 

CONCEITO DE RESILIÊNCIA:

O termo resiliência possui várias definições, sendo que o seu conceito se encontra em fase de construção e debate.

          De acordo com o dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1975), “originariamente, o termo resiliência vem da física e refere-se à propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão causadora da deformação elástica”.

          A palavra resiliência tem origem no latim resilio que significa retornar a um estado anterior (Monteiro et al., 2001).

          No entendimento de Poletti e Dobbs (2007), “a resiliência pode se manifestar em situações onde exista um grande risco devido ao acúmulo de fatores de stress e tensão, quando a pessoa é capaz de conservar aptidões em face do perigo e seguir crescendo harmoniosamente. Apesar de não resultar, pode receber influência das circunstâncias (sobretudo de sua primeira infância), das mensagens que recebeu, das ligações afetivas que criou e a segurança que essas lhe fizeram sentir. Considera-se, além disso, o ambiente no qual o sujeito se encontra, a presença ou ausência de pessoas sadias ao seu redor e os contextos político, social, cultural e religioso, nos quais ela se desenvolve”.

          Grotberg (2005, apud Melillo et al., 2005) e Yunes (2003) entendem que a resiliência é compreendida como a capacidade humana de enfrentar e de ser fortalecido por experiências de adversidade que estão presentes em crises de indivíduos e organizações.

          Segundo Torralba e Vásquez-Bronfman (2006), “a palavra resiliência designa a capacidade de vigor – do aço fundido – para recuperar sua forma inicial apesar dos golpes que podem receber, e apesar dos esforços que possam ser feitos para deformá-lo. A palavra provém do latim resalir: saltar e voltar a saltar do problema, recomeçar”.

          Para Zimmerman e Arunkumar (1994), o termo resiliência refere-se aos fatores e ao processo que interrompem uma trajetória de risco para transtornos de comportamento ou psicopatologias, resultando em respostas positivas mesmo na presença de adversidade. Aplicada à área da saúde mental, esta concepção pode ser compreendida como a capacidade de o sujeito evitar a reprodução, na vida adulta, dos conflitos e dos desajustes familiares, vividos na infância.

          De acordo com Noronha, Cardoso, Moraes e Centa (2009) “a resiliência caracteriza-se pela capacidade do ser humano responder às demandas da vida cotidiana de forma positiva, apesar das adversidades que enfrenta ao longo de seu ciclo vital de desenvolvimento, resultando na combinação entre os atributos do indivíduo e de seu ambiente familiar, social e cultural”.

          Já de acordo com Garmezy (1993), a resiliência é a capacidade de recuperar o padrão de funcionamento após experienciar uma situação adversa, sem que, no entanto, deixe de ser atingido por ela. Este conceito está associado à ideia de que a pessoa resiliente, vivendo sob uma situação de ameaça ao seu bem-estar, pode se curvar, perder suas forças e ainda se recuperar. A ênfase nesta capacidade do sujeito para retomar os padrões de comportamento habituais que possuía antes de vivenciar a adversidade pressupõe que ela funcionava relativamente bem ao se deparar com a situação negativa e somente a partir deste momento passa a ter dificuldades, mas que algo se produz, levando-a a recuperar sua forma.

          Desse modo, resiliência representa a capacidade de vigor de um corpo para recuperar a sua forma inicial apesar dos golpes que podem receber e apesar dos esforços que possa deformá-los.

          Ainda, de acordo com Rutter (1999), a resiliência seria um resultado da interação entre fatores genéticos e ambientais, o que se configura como algo complexo, visto que estes podem atuar tanto com fatores de proteção para o indivíduo como de risco. Assim sendo, alguns indivíduos, em determinado momento de sua vida, podem apresentar-se resilientes e em outros não, pois, se as circunstâncias mudam, a resposta da pessoa também pode ser modificada.

          Por isso, qualquer pessoa, em algum momento da sua vida, pode mostrar-se resiliente, uma vez que a resiliência não é um construto universal aplicável a todas as áreas do funcionamento humano, já que se trata de um processo muito dinâmico, multifatorial e multidimensional (Rutter, 1999).

Porém, em relação ao ser humano, a resiliência não significa um retorno a um estado anterior, mas a superação diante de uma dificuldade considerada um risco e a possibilidade de construção de novos caminhos de vida e de um processo de subjetivação a partir do enfrentamento de situações estressantes ou traumáticas. Desta forma, seria a capacidade de sair-se bem frente a fatores potencialmente estressores.

          A resiliência não é sinônimo de invulnerabilidade ou de invencibilidade, nem pode se dizer que já nasce com o indivíduo. Essa descrição se configura como um processo que admite variabilidade em função das relações estabelecidas entre os atributos individuais e ambientais e as diferentes situações nas quais esses atributos se expressam; um processo que atua na presença de riscos ao desenvolvimento e através do qual é produzido resultados tão bons ou melhores do que os obtidos na ausência de adversidade (Couto, 2007).

          Portanto, a resiliência pode ser entendida como processo interativo entre o indivíduo e seu meio, sendo que os mesmos fatores causadores de estresse podem ser experenciados de maneiras distintas por pessoas distintas, portanto, não é um atributo fixo do indivíduo.

          Nesse sentido, pode ser apresentada como um fenômeno, um funcionamento, ou ainda, por vezes, uma arte de se adaptar às situações adversas (condições biológicas e sociopsicológicas) desenvolvendo capacidades ligadas aos recursos internos (intrapsíquicos) e externos (ambiente social e afetivo), que permitem aliar uma construção psíquica adequada à inserção social.

          Segundo Grotberg (2005), a resiliência é um processo em que há fatores, comportamentos e resultados resilientes. Tais fatores são expostos pela autora como: “Eu tenho”, “Eu sou”, “Eu estou”, “Eu posso”, sendo que, tais fatores podem ser desenvolvidos nas diferentes faixas etárias.

          Desta forma, a resiliência está diretamente relacionada ao desenvolvimento e ao crescimento humano. Ou seja, “Os comportamentos resilientes conduzem a resultados positivos para todos. Enfrentar uma adversidade não pode prejudicar outras pessoas. Por isso, um dos fatores de resiliência é o respeito pelos outros e por si mesmo” (Grotberg, 2005).

          Em suma, a resiliência representa a capacidade concreta das pessoas de não só retornarem ao estado natural de excelência, superando situações críticas, mas também de utilizá-las em seus processos de desenvolvimento pessoal, sem se deixarem afetar negativamente, capitalizando as forças negativas de forma construtiva.

 

FATORES DE RESILIÊNCIA   :

Se estes sistemas estão protegidos e em bom funcionamento conjunto, o desenvolvimento é positivo, mesmo na presença de adversidade. Entretanto, se estes sistemas são prejudicados em decorrência da exposição a um fator de risco, ou podemos observar que o conceito de resiliência está atrelado a presença de uma condição adversa ou de risco.

          No entendimento de Masten e Coatsworth (1995), o termo resiliência deve ser usado somente para aqueles casos em que a pessoa responde positivamente em presença de risco significativo, devendo ser evitado quando a resposta é positiva, mas não houve essa exposição.

          Desse modo, a resiliência refere-se ao fenômeno caracterizado por resultados positivos na presença de sérias ameaças à adaptação ou ao desenvolvimento da pessoa (Masten, 2001).

          A resiliência parece ser um fenômeno simples e comum, que resulta, em muitos casos, da operação de sistemas básicos de adaptação humana mesmo anteriormente à presença dele, o potencial para desenvolver problemas no desenvolvimento posterior é maior (Masten, 2001).

          Ao contrário da ideia de invulnerabilidade, resiliência diz respeito a uma capacidade de enfrentar e responder bem quando há perigo e possíveis conseqüências negativas, ou seja, não se está diante de uma situação em que a pessoa não experimente o estresse, ou que não se sinta atingida pela sua adversidade, nem tampouco que o risco tenha sido afastado (Masten et al., 1995).

          Em outras palavras, o conceito de resiliência está relacionado à adaptação, tendo como foco as variações individuais em respostas a fatores de risco; compreensão das consequências da exposição de pessoas a adversidades e consequente superação; capacidade humana de fazer frente às adversidades da vida e habilidade do indivíduo de superar as adversidades (Melillo et al., 2005).

          Na visão de Masten (2001), resiliência é um construto inferencial e contextual, que envolve duas dimensões: a presença dos processos de adaptação e dos fatores de risco. Com relação à primeira, a literatura aponta controvérsias entre os pesquisadores que definem resiliência a partir do conceito de adaptação. Por outro lado, a segunda dimensão revela a existência de um consenso entre os teóricos do assunto de que sua presença é imprescindível para a pesquisa em resiliência (Cowan et al., 1996; Rutter, 1996).

Assim sendo, a resiliência pode ser entendida como atributo pessoal ou traços de personalidade, poderia levar a uma concepção individualista, cujas explicações estariam a serviço de um processo de rotulação, uma vez que a pessoa, além de não conseguir superar suas dificuldades, poderia ser agora classificada como “não resiliente” (Yunes et al., 2001; Ungar, 2004).

          Em suma, os conceitos analisados neste trabalho podem ser classificadas em uma das três categorias já referidas por Werner (1995), ou seja: a) a capacidade do ser humano (indivíduo; família ou comunidade) de manifestar resultados desenvolvimentais esperados, apesar dos riscos presentes no ambiente, os quais podem comprometer esse processo; b) a manutenção de certas competências, mesmo na vigência de adversidades; c) a capacidade do ser humano de recuperar-se das adversidades que experiência ao longo de sua trajetória vital.

          Verifica-se que cada uma destas categorias aporta limites e possibilidades, devendo, portanto, ser cuidadosamente examinadas quanto a sua aplicabilidade, tanto na prática profissional, quanto na pesquisa (Werner, 1995).

         Sobre o conceito de resiliência, outro aspecto importante a destacar é que pressupõe a presença de circunstâncias de vida adversas quando, então, o ser humano é confrontado com os desafios que se inscrevem em seu interior, os quais colocam à prova sua capacidade de enfrentá-los (Melillo et al., 2005).

          Esse entendimento, expressa uma contradição, uma vez que é, justamente, na vigência de situações adversas que o ser humano revela potencialidades extraordinárias.

Desse modo, analisando sob este ponto de vista, a resiliência traduz uma dimensão de positividade inserida nas reações dos sujeitos frente aos desafios que, inegavelmente, aporta uma perspectiva promissora em termos da saúde e do desenvolvimento humano, principalmente, junto às populações que vivem em condições psicossociais desfavoráveis (Paludo et al., 2005).

          Alguns autores, sensíveis a esta preocupação, buscaram entender o processo de resiliência sobre um ponto de vista relacional e não como traço de personalidade. Portanto, os fatores de resiliência seriam compreendidos como produtos de uma construção que se dá na interação social, identificáveis por meio das redes de apoio sociais mais amplas.

Segundo Assis, Pesce e Avanci (2006), “o que se deduz dessas teorias é o caráter construtivo da resiliência, que não nasce com o sujeito nem é uma aquisição exclusiva de fora para dentro, mas sim um processo interativo entre a pessoa e seu meio, o qual capacita e fortalece o indivíduo para lidar positivamente com a adversidade”.

          Desse modo, o desenvolvimento de fatores de resiliência dependerá do meio no qual a pessoa está inserida e dos recursos disponíveis para superar a diversidade que permitam ao sujeito ressignificar o evento traumático ou adverso.

Ainda, outro aspecto relevante no estudo deste conceito é o processo dinâmico que ocorre entre os chamados fatores de risco e proteção.

          De acordo com Paludo e Koller (2005), os fatores de risco são acontecimentos na vida que aumentam a probabilidade do sujeito apresentar problemas físicos, psicológicos e sociais, enquanto os fatores de proteção, ou fatores de resiliência, referem-se às influências que modificam, melhoram ou alteram respostas pessoais a determinados riscos de desadaptação. Desse modo, os fatores de risco e proteção estão imbricados uma vez que só podemos falar em resiliência quando há algum fator estressor em jogo.

          Assim sendo, questiona-se quem define o que é evento traumático ou adversidade e quem define o que são fatores de resiliência. E ainda, quais os parâmetros que nos permitem dizer que alguém é resiliente ou não.

          Dessa forma, uma vez que não é possível ter o controle total dos eventos ocorridos ao longo da vida, ser resiliente representa a forma como o sujeito interpreta e dá sentido a essas situações. A resiliência se expressa à medida que os riscos estão presentes. É com a instalação do problema que o sujeito terá a oportunidade de demonstrar reações mais positivas consideradas resilientes.

          É importante ressaltar ainda que os fatores de proteção também estão diretamente ligados ao estudo da resiliência. Eles podem dar sentido ao tipo de reação que uma pessoa poderá assumir diante de uma situação de risco.

          No entendimento de Rutter (1985 apud Yunes, 2001), “fatores de proteção referem-se a influências que modificam, melhoram ou alteram respostas pessoais a determinados riscos de desadaptação”. Essas influências agem em ambientes facilitadores, os quais incentivam comportamentos mais adaptativos na presença de situações indesejáveis, comportamentos esses considerados resilientes. A existência desses ambientes é de grande importância para um movimento de promoção de resiliência (Rutter, 1985 apud Yunes, 2001).

          Ainda, devemos considerar que os homens têm suas concepções individuais e formas de enfrentamento singulares sobre situações que envolvem riscos. Dessa forma, afirmar que existe risco é tão complexo quanto reconhecer os fatores de proteção para uma pessoa. Necessita-se de informações seguras e cautelosas para afirmar que uma pessoa revela características resiliente (Rutter, 1985 apud Yunes, 2001).

Assim sendo, torna-se importante considerar os processos e mecanismos, ou seja, conhecer o cenário de vida desta pessoa, suas relações com o meio a fim de entender as repercussões das situações adversas em sua vida.

 

PROCESSO DE ENVELHECIMENTO E VULNERABILIDADE.

          O século XX foi marcado por profundas transformações. Dentre elas, o fenômeno do envelhecimento populacional se destaca na população brasileira, ocasionando aumento da expectativa de vida da população e consequente aumento do número de idosos no país.

          A possibilidade de se tomar o envelhecimento como processo positivo e a velhice como etapa da vida que pode ser acrescida de bem-estar, prazer e qualidade de vida vem sendo objeto de pesquisadores e estudiosos interessados em compreender as condições associadas à saúde na última fase do ciclo de vida: a velhice (Lima, Silva, Galhardoni, 2008).

Assim sendo, baseando-se na visão de que é possível manter o bem-estar e a qualidade devida na velhice, os conceitos de envelhecimento ativo e bem-sucedido têm levantado discussões sobre o envelhecimento saudável, enfatizando que a velhice eo envelhecimento não são sinônimos de doença, inatividade e contração do desenvolvimento (Lima, Silva, Galhardoni, 2008).

          Paz, Santos e Eidt (2006), enumeraram as condições sociais e de saúde que, empiricamente, podem estar envolvidas no contexto da vulnerabilidade em saúde no processo de envelhecimento, entre elas: a capacidade funcional na velhice, a distribuição das doenças crônico-degenerativas, a disponibilidade de programas e serviços, a posição social que os indivíduos ocupam e os recursos sociais disponíveis.

          Entretanto, apesar de esses autores apresentarem a relação entre a vulnerabilidade e a saúde, atualmente, a terminologia “vulnerabilidade” tem sido utilizada para se referir aos idosos com susceptibilidade para desenvolver incapacidades, ou para indicar os idosos com condições sociais desfavoráveis e que possuiriam menos acesso a oportunidades de atingir níveis satisfatórios de saúde e independência (Hildon et al., 2010).

          De acordo com Yunes e Szymanski (2001), a palavra vulnerável origina-se do verbo latino vulnerare, que significa ferir, penetrar. Ainda, as autoras acreditam que, devido a estas raízes etimológicas, vulnerabilidade é um termo geralmente usado na referência de predisposições a desordens ou de susceptibilidade ao estresse e envolve a exposição a diferentes tipos de agentes estressores.

          No entendimento de Masten e Garmezy (1985), a vulnerabilidade refere-se a uma predisposição individual para apresentar resultados negativos no desenvolvimento, o qual está relacionada com uma predisposição para desenvolver uma desordem específica ou com uma susceptibilidade geral ao stress.

          Na visão de Cowan et al. (1996), a vulnerabilidade aumenta a probabilidade de um resultado negativo ocorrer na presença de um fator de risco. Contudo, ela opera somente na presença dele, ou seja, sem o risco, ela não tem efeito.

          Ainda, de acordo com Cowan et al. (1996) “risco e vulnerabilidade são processos relacionados com resultados negativos ou indesejados. O risco pode ser identificado tanto em nível individual como em nível ambiental. A vulnerabilidade, por outro lado, está relacionada com uma característica pessoal, inata ou adquirida. Contudo, somente na interação com os eventos de vida é que podem ser observadas, tanto as influências do risco, como as manifestações da vulnerabilidade”.

          Contudo, é importante ressaltar que, apesar das semelhanças entre os conceitos de risco e vulnerabilidade, eles diferem em um aspecto essencial: o risco está associado com uma probabilidade estatística presente em grupos e populações, a vulnerabilidade, por outro lado, está relacionada, estritamente, à pessoa e às suas predisposições a respostas ou consequências negativas (Cowan et al., 1996).

          Já no entedimento de Ayres et al. (2003), o plano da vulnerabilidade pessoal refere-se a comportamentos que os indivíduos adotam que podem ser favoráveis ou desfavoráveis para o autocuidado e o estado de saúde. Já o plano da vulnerabilidade social enfatiza que as representações sociais, os estigmas, e as condições sociais podem ser fatores que contribuem para o status de saúde, valorizando também o acesso aos meios de comunicação e a disponibilidade de usufruir de recursos cognitivos e materiais. Já o plano de vulnerabilidade programática e de serviços sugere que o acesso, a qualidade dos programas e o compromisso das instituições são determinantes importantes para a distribuição das condições de saúde e bem-estar.

          Ainda, é importante ressaltar que a vulnerabilidade em saúde é um conceito apropriado para estimular respostas sociais e que não possui aplicação direta às questões que envolvem a saúde na velhice (Ayres et al., 2003).

Assim sendo, pode-se questionar se o idoso é socialmente reconhecido como um cidadão de direitos e que, independentemente da condição social, possui o direito de alcançar o envelhecimento saudável e apresentar uma velhice bem-sucedida (Brasil, 2003).

          O conceito de velhice bem-sucedida, na Gerontologia, foi proposto por Havighurst no início da década de 1960, sugerindo que envelhecer bem era produto da participação em atividades, sendo essas associadas à satisfação, manutenção da saúde e participação social. A definição desse conceito foi uma mudança ideológica importante no estudo do envelhecimento, incentivando a investigação sobre os aspectos positivos na velhice e sobre o potencial de desenvolvimento associado ao envelhecimento (Neri, 2001).

          É importante ressaltar, ainda, que o conceito de velhice bem-sucedida foi resignificado, ao final da década de 1980 e início da década de 1990, e passou a ser tratado por dois modelos teóricos: o de Rowe e Kahn (1998), que foi baseado nos dados do estudo norte-americano “MacArthur Foundation Study”, e o de Baltes e Baltes (1990), que propôs o modelo teórico de “Seleção, Otimização e Compensação (SOC)” para representar, no âmbito das ciências psicológicas, as possibilidades de plasticidade comportamental e funcional em face das perdas associadas às últimas fases do ciclo de vida.

          Segundo o modelo proposto por Rowe e Kahn (1998), o envelhecimento bem-sucedido seria composto por três fatores: engajamento com a vida; manutenção de altos níveis de habilidades funcionais e cognitivas e baixa probabilidade de doença; e incapacidade relacionada à prática de hábitos saudáveis para redução de riscos.

          Contudo, apesar de esses fatores serem importantes, esse modelo possui limitações por tratar como secundárias as dimensões socioculturais e coletivas associadas à saúde na velhice e por poucos idosos se enquadrarem nesse modelo (Britton et al., 2008).

          De acordo com Baltes e Baltes (1990), os idosos que conseguem usar mecanismos de compensação e regulação das perdas associadas ao envelhecimento são aqueles que alcançam a velhice bem-sucedida e atingem níveis satisfatórios de independência.

          Desse modo, esses autores ao propor o modelo de Seleção, Otimização e Compensação (SOC) sugerem que os idosos selecionam as tarefas que acreditam possuírem melhor ou ótimo desempenho, excluindo ou evitando aquelas com as quais possuem dificuldades; aperfeiçoam as habilidades que ainda estão preservadas, utilizando esforços para mantê-las; e compensam as habilidades comprometidas, como é o caso das estratégias mnemônicas para manter a eficiência da aquisição e resgate de novas informações.

          Assim, em face das limitações conceituais do modelo proposto por Rowe e Kahn (1998), Kahn (2003) incentiva que o debate sobre envelhecimento bem-sucedido seja acrescido pelo modelo teórico proposto por Baltes e Baltes (1990) e por investigações que consideram a auto percepção dos idosos sobre o estado de saúde.

          Ainda, além dos modelos destacados, a política de envelhecimento ativo, proposta pela Organização Mundial de Saúde (OMS, 2005), também tem discutido as questões relacionadas à saúde na velhice, enfatizando que envelhecer bem faz parte de uma construção coletiva e que deve ser facilitado pelas políticas públicas e por oportunidades de acesso à saúde ao longo do curso de vida.

          Dessa forma, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2005) o envelhecimento ativo baseia-se na “otimização das oportunidades de saúde, participação, segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida à medida que as pessoas ficam mais velhas”.

          Por fim, para se envelhecer de forma saudável e bem-sucedida, é preciso favorecer oportunidades para que os indivíduos possam optar por estilos de vida saudáveis e, ainda, fazer controle do próprio status de saúde.

 

FATORES DE RISCO E PROTEÇÃO EM IDOSOS:

          O envelhecimento da população é reflexo do aumento da expectativa de vida, devido ao avanço no campo da saúde e à redução da taxa de natalidade. E, dessa forma, no envelhecimento, além de doenças, incapacidades e declínios, também se concebe aspectos positivos e potencialidades manifestadas de forma heterogênea entre os idosos. Percebe-se, nessa população, a resiliência e a autoestima, configurando-se como fatores de proteção para uma velhice bem-sucedida.

          Na velhice, ocorrem várias mudanças tanto nos âmbitos social, quanto no biológico e psicológico. Contudo, incapacidades, doenças, podem conceber aspectos positivos e potencialidades manifestadas de forma heterogênea entre os idosos. Para favorecer um envelhecimento saudável, faz-se necessário promover os fatores de proteção e favorecer uma adequação aos fatores de risco.

          De acordo com Noronha et. Al. (2009), fatores de proteção são fortes influenciadores da capacidade de adaptação a fatores de risco, sendo tal capacidade é denominada resiliência. A resiliência caracteriza-se pela capacidade do ser humano responder às demandas da vida cotidiana de forma positiva, apesar das adversidades que enfrenta ao longo de seu ciclo vital de desenvolvimento, resultando na combinação entre os atributos do indivíduo e de seu ambiente familiar, social e cultural.

          Deste modo, pode-se dizer, que a presença de situações adversas estão atreladas ao conceito de resiliência, já que ela não traz a ideia de invulnerabilidade e sim de responder bem diante do risco, a saber, se trata de uma situação em que a pessoa fica exposta ao estresse, seja realmente afetada pela adversidade, mas o indivíduo é capaz de se superar e encontrar estratégias para lidar com a situação de forma positiva.

          Assim, a autoestima, por exemplo, estaria, então, entre os fatores individuais de proteção, a qual pode influenciar no surgimento de outros fatores protetores em algum momento da vida do indivíduo. Não obstante, ela também indica um alto juízo sobre si mesmo, embora seja um conceito complexo sabe-se que está relacionada à saúde mental e ao bem-estar psicológico. Além disso, a baixa autoestima está muito relacionada a sentimentos depressivos.

 

FATORES DE RISCO

 

          O objetivo deste capítulo é destacar a relação dos fatores de risco juntamente à proteção na saúde do idoso.

         O conceito de fator de risco estava inicialmente associado ao modelo biomédico, sendo freqüentemente relacionado ao termo mortalidade (Grünspun, 2011; Haggerty, Sherrod, Gamezy & Rutter, 2000). Um exemplo de fator de risco é a utilização do tabaco para doenças como o câncer do pulmão.

          Somente a partir da década de 1980, que o termo foi associado aos estudos sobre desenvolvimento humano (Horowitz, 1992). Primeiramente, os estudos procuravam definir e identificar os fatores de risco ou as adversidades, a fim de avaliar sua influência no desenvolvimento de crianças e adolescentes e, principalmente, para organizar intervenções voltadas à redução de problemas de comportamento nessa população. Entretanto, os riscos podem atuar não só na infância ou na adolescência, mas em qualquer etapa do ciclo vital, mudando a direção do desenvolvimento.

          Diante disso, pode-se dizer que o conjunto de fatores de risco inclui componentes biológicos e de temperamento.

Considera-se risco todo evento que se configura como obstáculo ao nível individual ou ambiental reforça a vulnerabilidade do sujeito a efeitos negativos (Pesce, Assis, Santos & Carvalhaes, 2004).

          Também denominados de mecanismos de riscos, os fatores de riscos representam eventos adversos que se tornam obstáculos potencializadores de efeitos de um estressor (Pesce RP, Assis SG, Avanci JQ, Santos NC, Malaquias JV, Carvalhaes R, 2005).

          Em outras palavras, os fatores de risco relacionam-se com toda a sorte de eventos negativos da vida e que, quando presentes, aumentam a probabilidade de o indivíduo apresentar problemas físicos, sociais e emocionais (Cowan, Cowan e Schulz, 1996).

          Os fatores de riscos podem resultar em perturbações psicológicas, respostas mal-adaptivas e consequentes resultados para o desenvolvimento do indivíduo.

Esses fatores podem ser visualizados não somente sob a perspectiva isolada, mas principalmente como um acúmulo de fatores como a cronicidade, consequências, período situação e contexto de exposição ao risco.

          Algumas variáveis têm sido apontadas como possível aumento dos fatores de riscos[GQGM3] , como a pobreza, as rupturas familiares, as doenças, as perdas significativas, a violência física e psicológica, as atitudes discriminatórias e preconceituosas.

          A pobreza crônica, por exemplo, favorece o acúmulo de estressores que, muitas vezes, persistem ao longo dos anos, produzindo uma cadeia de riscos que ensejam na redução ou até mesmo na destruição das possibilidades de resposta positiva em relação às adversidades cotidianas vivenciadas. Desta maneira, o início pode se dar com a inadequada nutrição e supervisão médica para a mãe durante a gravidez, segue com a desnutrição e as doenças ligadas à inacessibilidade de cuidados de saúde adequados; a falta de escolaridade; e, desta forma chegando a fase adulta com salários insuficientes.

Além disso, outros elementos estão presentes. Vinay e cols (2000) dizem que falar de resiliência implica em falar não apenas dos riscos impostos pelas circunstâncias vividas pelo sujeito, mas, também, em reconhecer a presença, neste mesmo ambiente, de certos fatores que podem proteger o ser humano, atenuando ou neutralizando os efeitos negativos dos riscos e viabilizando a construção da resiliência.

          Neste contexto, riscos ou adversidades são variáveis ambientais ou contextuais que aumentam a probabilidade da ocorrência de algum efeito indesejável no desenvolvimento (Haggerty et al., 2000). Ou seja, os fatores de risco são aqueles que aumentam a probabilidade de um indivíduo apresentar comportamentos negativos e mal adaptados durante o seu desenvolvimento.

Um dos fatores de risco apontado como de extrema relevância é o ageísmo, o qual será abordado no subcapítulo a seguir;

Ageísmo.

          Embora o aumento da expectativa de vida represente uma conquista para a população e para a ciência, ainda prevalece a ideia negativa do envelhecimento. Em uma sociedade onde se valoriza a juventude, a velhice é baseada por contexto no qual o culto da juventude é cada vez mais reforçado, a velhice é permeada por estereótipos e preconceitos que reduzem a uma fase de enfraquecimento e perdas.

O termo ageísmo foi utilizado pela primeira vez em 1969 por Robert Butler que o conceituou como meio de intolerância à idade. (Falcão e Dias, 2006). Palmore (2004), entente ageísmo como preconceito e discriminação contra pessoas idosas.

          O ageísmo pode alcançar qualquer pessoa que viva o suficiente para envelhecer.

          O processo de envelhecimento é formado por um fenômeno biopsicossocial fortemente influenciado pela cultura e pelas condições e contextos de vida. E, ainda, além da heterogeneidade resultante das influências socioculturais, o fato de o envelhecimento ser um processo altamente individualizado, tem um peso cumulativo no percurso de vida de cada um e, também, nos limites e contornos do seu envelhecimento.

          Sabe-se que há estereótipos em relação a idosos classificando-o como inflexíveis, solitários, religiosos, improdutivos, doentes, depressivos, senis, frágeis e sem energia (Nussbaum et al., 2005).

          Diferente do que ocorre em outros preconceitos, o ageísmo se desenvolve implicitamente, de forma inconsciente, sem controle e intenção de lesar o alvo.

          Há diversas acepções teóricas sobre o ageísmo. Becker: Manejo do Terror; Cuddy e Fiske (2002): Teoria da Modernização; Kite e Wagner (2002): Perspectiva Teórica; Tajfel e Turner (2002): Teoria da Identidade Social.

          A teoria de Becker, conhecida como Manejo do Terror, é baseada na vivência do seguinte paradoxo: o homem existe para viver e lutar por sua sobrevivência, mas a única certeza que tem é a de que vai morrer no futuro. Assim, o manejo do terror é caracterizado pelo modo de negar a morte, que o homem cria um potencial para desenvolver uma espécie de terror paralizante o qual é evitado. (Greenberg, Schimel & Martens, 2002).

          Já para Cuddy e Fiske (2002), a Teoria da Modernização é apresentada como uma outra possibilidade de compreensão do ageísmo. De acordo com essa teoria, a redução do status dos idosos é consequência da transformação das sociedades agrárias em sociedades modernas e industriais.

E, ainda, para Kite e Wagner (2002), é baseado na perspectiva teórica sobre os papéis sociais como tentativa de explicar o ageísmo. As crenças mantidas pelos indivíduos a respeito de grupos esteriotipados são influenciados sob a ótica dos comportamentos que se originam dos papéis sociais dos membros desses grupos. De acordo com a teoria da auto categorização, a identificação das pessoas com determinado grupo afeta a forma como lidam com a pertença a ele; isto determina o que vai ser sentido pelas pessoas como ameaçador e as suas respostas a essas ameaças.

          Já Tajfel e Turner (Kite & Wagner, 2002), em uma outra maneira de entender o ageísmo vincula-se à Teoria da Identidade Social (TIS). Um dos pressupostos da TIS é o fato de que os julgamentos baseados na idade implicam uma avaliação de alguém que ou pertence ao mesmo grupo etário ou pertence a outro. Com a busca de auto identidade positiva pelas pessoas, uma das maneiras de sentir-se bem em relação à própria identidade é fazê-lo em relação ao próprio grupo. Assim, as pessoas buscam atingir a auto identidade diferenciando-se positivamente e avaliando-se mais favoravelmente em relação aos membros de outros grupos.

          Desta forma, com o aumento da longevidade promovido pelas melhorias das condições de saúde há um enorme obstáculo a ser enfrentado pela população idosa, uma vez que não foram preparados para os novos empregos, dificultando o acompanhamento nos avanços tecnológicos, e, consequentemente excluindo-os do mercado de trabalho. Por fim, com o surgimento da educação pública, estabeleceu-se socialmente uma maioria de pessoas alfabetizadas, perdendo os idosos a posição de transmissores da cultura e de sabedoria há muito sustentada.

          Assim, no envelhecimento, o ageísmo poderá ser considerado um fator de risco para os indivíduos, na medida em que sendo um estereótipo macrossistêmico, ele pode ser um fator de violência psicológica contra o idoso. Se assim for, mais pesquisas sobre o tema são necessárias à compreensão e à descoberta de formas de reduzir o seu impacto na vida de idosos.

 

- FATORES DE PROTEÇÃO

 

          O fato de haver fatores com potencial capacidade para minorar eventuais efeitos negativos ou disfuncionais na presença do risco é um tema que instiga o interesse de pesquisadores das áreas da saúde mental e da psicopatologia. Por serem considerados capazes de proteger o indivíduo frente à adversidade, tais fatores são denominados como mediadores (buffers), protetores ou de proteção (Cowan et al., 1996; Pesce et al., 2004).

          Embora seja válida a identificação de potenciais fatores de proteção ao desenvolvimento e à qualidade de vida, Rutter (1987) adverte para a importância de se focarem os mecanismos e os processos protetores associados e não apenas o produto. Isso quer dizer que ao invés de somente buscar tais variáveis, é necessário compreender de que forma elas atuam na redução dos impactos da adversidade.

          Esse autor, ainda, argumenta que os fatores de proteção só atuam ou têm efeito na presença de um fator de risco. Populações que não estão expostas a potenciais fatores de risco só acionam os fatores protetores na ativação de fatores de risco. Os modos de atuação dos processos de proteção são, assim, considerados catalíticos, uma vez que ao invés de terem um efeito próprio modificam o de outras variáveis (no caso, fatores de risco).

          Os mecanismos protetores reduzem também o impacto do risco através da alteração do significado ou do perigo de risco considerado pelo indivíduo. Da mesma forma, a redução ocorre pela alteração da exposição ou do envolvimento do indivíduo com o risco, pela redução das reações negativas decorrentes da exposição ao risco, pela manutenção de autoestima e auto eficácia e, ainda, pela criação de oportunidades para reversão dos efeitos do estresse (Rutter, 1987).

Três classes principais de fatores de proteção foram identificadas por Masten e Garmezy (1985). São elas: 1) atributos disposicionais, como autoestima; 2) coesão familiar e ausência de conflitos; e, 3) disponibilidade de redes de apoio social que encorajem o indivíduo a lidar com as adversidades efetivamente.

          Pesquisas sobre as variáveis promotoras de resultados funcionais em situações de risco vêm aumentando em número. Isso ocorre justamente devido ao papel fundamental que os mecanismos de proteção desenvolvem no restabelecimento do equilíbrio perdido em decorrência do risco (Pesce et al., 2004).

              Portanto, explorar as relações entre os mecanismos de proteção e a resiliência em idosos, entre elas a influência da rede de apoio e dos efeitos no bem-estar psicológico do idoso quando deparado com alguma adversidade (como por exemplo, o ageismo ou os eventos de vida estressantes) é fundamental para os estudos sobre a qualidade de vida....

O livro Síndromes e Distúrbios Neuropsicológios- Mariáh Ferry