27/03/2017

SÍNDROME PÓS TRAUMÁTICA POR DOENÇAS CONSIDERADAS TERMINAIS.

SÍNDROME PÓS TRAUMÁTICA POR DOENÇAS CONSIDERADAS TERMINAIS.

Diversas são as descrições de pessoas que passaram por algum tipo de câncer e obtiveram remissão assim como outras doenças; desde transplante renal, septicemia...É longa a lista de doenças. De volta ao dia a dia essas pessoas citam as alterações emocionais que ocorrem após cirurgia ou após estar em parte livre da suposta "morte" . O depois oscila de pessoa para pessoa, algumas elaboram com mais rapidez. Outras, no entanto podem manter os sintomas adquiridos pelo resto da vida, no entanto o mais comum é durar cinco anos toda a problemática emocional. Tais alterações ocorrem com intensidade alarmante nos tre primeiros anos e com tendência a diminuir as crises. As crises podem conter teor de irritabilidade altíssima chegando a agressão. É comum ouvir frases como "parece que fiquei cego naquele momento"...A confusão mental está presente sempre, a capacidade de julgamento fica alterada e sómente no quarto ano essas pessoas parecem voltar ao que eram, e vez ou outra apresentam uma crise quando acreditavam estar livre delas. Algumas pessoas que são mais contidas podem não apresentar o quadro de irritabilidade, por outro lado desenvolvem outras doenças como fibromialgia, enxaquecas constantes, hipertensão... enfim a lista é considerável e variável com sintomas em que nem sempre os médicos conseguem correlacionar.

           Dentre esses sintomas uma descrição parece ser comum; passam a ver o mundo diferenciadamente, comparam sempre o antes e o depois da doença, percebem que antes viam o mundo sob um prisma bom invertendo repentinamente a percepção. Enxergam dose de maldade até em pequenas coisas que no passado não fazia parte de sua forma de pensamento. A extrema sensibilidade pode ser analisada como intenso estresse exacerbando as emoções a todos os níveis tornando-se magoável, irritada, há o desenvolvimento de pautas paranoicas.

Em função da oscilação de humor viajando entre uma patologia e outra, percebendo maldade exagerada na conduta dos demais começa a distanciar-se das pessoas, inclusive das mais próximas que não são aprovadas em seu julgamento. A oscilação gira entre excesso de confiança e muita desconfiança. Os extremos entram em ação dificultando as pessoas que são próximas e até mesmo os profissionais que tratam o problema.

           Provavelmente porque o histórico da doença adquirida (câncer ou outras) já vem de um estresse em que foi quase impossível digerir tantos acontecimentos ou emoções indesejadas, necessitando resolver dentro de si a possibilidade de morte. O câncer fragiliza exageradamente as emoções também por ser um tratamento cansativo, instável...

           O câncer é sem dúvida uma entre as diversas doenças penosas e debilitantes que afligem a humanidade. Qualquer doença séria provoca desarranjos na vida de um ser impondo tensões em sua organização psicológica; quanto mais séria for a doença mais severa será a tensão imposta. Alguém que fique confinada por várias dias com algumas fraturas poderá ter alterações conturbadoras, poderá ter alucinações, perceberá sua impossibilidade de estar atuando em suas atividades profissionais e familiares, sente-se desconfortável em seu estado principalmente se necessitar de ajuda com relação a higiene. A ausência de autonomia torna-se muito penosa; não é agradável ser alimentado por terceiros, sentir que outros estão dando banho ou ter acompanhante para satisfazer suas necessidades básicas. Portanto, se essa pessoa se recuperar haverá um estresse inexplicável; em muitos casos já houve agressividade, pensamentos confusos ou obsessivos, paranoia, desconfiança exagerada inclusive de pessoas da convivência do dia a dia.

           Não são raros os casos de pessoas que nunca agrediram e pós doença grave passar a agredir fisicamente e com palavras. A duração do sintoma pós dura em média cinco anos, amenizando um pouco depois do terceiro ano e assim sucessivamente. Caso a pessoa venha a sobreviver em 5 anos a estabilidade emocional parece voltar ao normal.

           No entanto, quando a doença é de natureza crônica impondo incapacitação permanente o ajustamento é mais difícil de ser feito. Qualquer doença que resulte em perda de parte do nosso corpo ou de suas funções causa penosa distorção na imagem que o ser faz de seu corpo, A experiência de perda vai além da própria imagem que fazemos de nós, ficando não apenas no âmbito físico, mas no social á medida que necessita abrir mão de determinados passatempos ou atividades costumeiras e faziam parte dos ideais em que alimentavam. É se ver face a face  com o fato de estar abrindo mão de sua autonomia, da auto suficiência e principalmente da independência perdendo a liberdade na questão do ir e vir sem necessitar de autorização. É a perda da privacidade, é nunca mais estar só consigo.